| ROMANCE DE NICIA E FRANCISCO ROMANCE – 1921/84 Aos meus 19 anos, apoz uma vida bastante reprimida, vi-me de repente a fazer-me homem, sozinho no antigo Solar Cordovil, em Évora. Passei do 8 para o 80, podia ter dado diversos resultados, escolhi o casar, ter um lar, filhos, o continuar com a varonia do meu nome e o dar almas a Deus. De temperamento bastante individual, necessitava de uma noiva para mim mas que eu pudesse moldar à minha sensibilidade e formarmos um casal. Podia escolher um pouco, bastantes Mamãs viam com bons olhos este rapaz magricela, mas que tomava a vida a sério e com possibilidades financeiras e com bom nome. Durante 2 anos hesitei, mas prudentemente só pela certa me resolveria. Tive possibilidades, mas por acaso, sem pensar na eleita, pois ao chegar a Évora, me disseram que a Nícia era pretendida por um amigo, já que as Famílias eram muito íntimas e o desejavam. Conheci-a assim só numa festa de carnaval, em que ela vestia “à russa”, com os lindos cabelos caídos. Quasi me não chamou a atenção, pelo motivo já exposto e porque sendo a 1ª festa a que ia, estava muito tímida. Tempo passado, a Nícia se tornou na maior amiga da minha Irmã, e vi que tal boato não se concretisava e ela, apezar de discreta e tímida, mostrava uma simpatia especial por mim, talvez pela intimidade com que nos viamos. Era alta e bem feita, sem ser uma beleza era uma menina interessante e simpática. A Mãe sem gosto, a vestia à antiga sem fazer ressaltar a sua juventude, tinha só 17 anos, mas assim vestida parecia mais. A minha Irmã falava-me muito d’ela, com admiração, e dizendo-me que entre todas as casadoiras, ela era a mais sensata, mas com aquelas roupagens não me fascinava o suficiente para um todo o sempre. Foi no verão para o Algarve, fizeram-lhe uns vestidos mais proprios para a sua edade, e ela abriu naquela sociedade, a melhor da Praia da Rocha, tornando-se desenvolta, ainda que mantendo-se tímida e discreta. O seu Pai teve uma grave doença, todos ficamos impressionados com a sua Família, e reparei quanto era uma boa filha, sensível e sã. Eu, na Casa Cordovil, recebia a mocidade mais selecta, todas as 2ª feiras, cada levava qualquer coisa, eu dava o chá e assucar e a sala com gramofone. Ela frequentava essas reuniões, e a 30 de Outubro, estando o Pai melhor, ela apareceu com a sua Madrinha. Ficamos encantados das melhoras do Senhor José Camara, e eu recebi a Nícia instintivamente om mais afeição. A minha creada que vinha espreitar à festa, me disse que eu só essa noite tinha dansado com ela 17 vezes. No fim do ano houve uma reunião no Club de Évora, e a minha Irmã correu à minha procura a dizer-me, a Nícia hoje traz um lindo vestido, vem muito bem, parece outra. Reparei então, que vestida à rapariga, e com outro à vontade da sociedade, seria bem possível tornar-se numa Senhora bastante atraente, mas se a vi com outros olhos, não tomei nenhuma resolução. Fui com uns amigos à Igreja do Convento Novo, no Largo de Aviz em Évora, e começaram a dizer-me que pedisse 3 coisas, por ser a 1ª vez que ali entrava. Pedi à alma da minha querida e saudosa Mãe, que me d’esse uma indicação para eu me decidir e assim pedi-lhe, que entre as que eu andava hesitante, fosse a 1ª que viesse. Saímos da Igreja e logo de seguida a encontramos, e eu vi que seria essa que a minha Mãe desejaria para mim. Estava a fazer dentro de dias, os meus 21 anos, dia em que receberia a herança que me estava destinada. A minha Família andava entusiasmada para que eu a escolhesse, e eu prometi que à volta me decidiria. A 22 de Janeiro voltei a Évora, não rico, mas com o suficiente para poder casar. Gostando imenso de decorações tinha comprado algumas coisas, entre elas uma colcha velha, em linho pintado à mão. Cheguei a meio da tarde e todos me perguntaram o que decidira. Resolvi-me pela Nícia. Foi um delírio, disseram-me que vinha n’essa noite lá a casa, pois andava a aprender uns trabalhos de renda, ia com a minha Irmã e depois vinham trazê-la. Ao chegar, mostrei a minha colcha e a minha Tia Tuta que estava lá, disse para irmos dansar, pois os dedos estavam a pedir-lhe que fosse para o piano. Fomos, comecei a dansar com a minha Irmã, e logo a deixei para dansar com a Nícia. Ela nunca foi boa bailarina, mas ao ir para os meus braços, toda tremia. Disse-lhe então, “sabes pensei em casar, e pensei em ti”. A tremura redobrou. Disse-lhe logo, “não quero que me respondas agora, mas que te aconselhes com os teus, eu a começar um namoro, o considero um noivado a sério”. No dia seguinte fomos como de costume à missa das 11h à Igreja da Misericórdia, era um domingo. À saída, logo me disse, já falei com a minha Mãe e Madrinha e acharam bem. Não foi surpresa para mim, quasi todas as famílias me desejavam. Logo se combinou o irem à tarde para o jardim da casa Cordovil, com as respectivas Senhoras, de ambas as Famílias. Assim começou a sério o meu namoro, com o noivado oficial a 30 de Abril, e casamento a 22 de Novembro, 10 meses curtos, entre a declaração e o casamento. As famílias, de parte a parte, receberam a notícia com regojizo e muita amabilidade, tudo foi rápido como eu o desejava. Assim começou um romance feliz, e já com 63 anos de casados, com 9 Filhos batizados, 29 Netos e 32 Bisnetos, com um outro a vir, continuamos a ser um casal. Como toda a gente, temos tido dias bons, dias óptimos, dias menos bons, mas envelhecendo em comum. Na casa dos 80, o romance não tem o ardor, mas a amisade perdura, e espero, para sempre ela continue. Bendito Jesus e Maria, e a alma da minha Mãe nos recebam um dia, quando chegar a fatal hora da partida. Texto enviado pelo Avô Francisco à Querida Neta Ana Mota, em resposta a um pedido que ela lhe fez em 23 de Dezembro de 1984. Na carta, que acompanha este texto, escreve o Avô Francisco: “Oxalá este Romance continue nos Netos e Bisnetos, a servir de recordação dos velhos Avós Cordovil”. |