quinta-feira, 18 de setembro de 2008

TEXTO AVÔ FRANCISCO

DIVAGANDO 93

Eu vivi na época frívola da cultura geral, sabia um pouco de tudo, superficialmente, com poder de adaptação, alicerces mas sem a profundeza de uma especialidade científica, as letrinhas dessa cultura davam o encanto da conversa de sala.

Fui um europeu, mas já se esboçava a cultura vinda da América, destreza diária de uma especialidade mecânica, dizia-se, uns só fazem parafusos, outros só porcas, a industrialização aperfeiçoada em profundidade, é o que era, o operário especializado.

Foi nessa altura que o desporto substituiu o interesse cultural artístico e tudo se ressentiu desde as primeiras décadas destes século.

Hoje um jogador de futebol ganha mais e é mais conhecido, do que um escritor, é que as artes ficaram sem esboço e a música sem movimento e sem contraponto, tudo é vago, a adivinhar-se e a fazer pular o coração em excitação.

Agora não se conversa, discute-se tudo. Com calor, subindo de tom as conversas com o entusiasmo do movimentado jogo, e o prazer está em fazer um “golo”, há abraços canecas de cerveja e comentários.

Falar de arte, divagações de fé, ou balbuciar valores é tudo um fardo de fazer sono.
A arquitectura já não tem escultura, a escultura é só a combinação geométrica, sem desenho de pormenor.
Como sobreviver nesta viagem? Adaptando-me! Mocidade que tive, velhice que vivo.

Escrito do Avô Francisco em Outubro de 1993
Nota: O Avô Francisco (sobre)viveu desde 1900 (6 de Janeiro) até 1994 (apesar dos prognósticos de vida breve e frágil desde o seu nascimento).
Este texto é demonstrativo da sua atenção ao mundo e das mudanças que protagonizou, cada parágrafo daria para muitas conversas e está cheio de questões bem actuais. Recorda-me o prazer que tive nalgumas conversas que alimentámos nos seus últimos anos de vida.

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