| O INÍCIO DA MINHA EXPERIÊNCIA COMO ESTUDANTES NO UWCAD O meu nome é Ana Gaivão Cordovil e fui a candidata escolhida, pelo Comité Português dos UWC, para representar Portugal no UWC do Adriático, em Itália, no ano de 2001. Quando, há aproximadamente um ano, decidi concorrer a uma bolsa de estudo para um dos UWCs, não fazia a mínima ideia do que a minha vida ia mudar em tão pouco tempo. Depois de ter sido seleccionada passei por um período de reflexão, no qual tive que decidir se isto era realmente aquilo que queria e se estaria preparada para o enorme passo a que me propunha: sair de casa, ir viver para Itália, num meio em que não conhecia ninguém, com um inglês um pouco fraco e tentar conviver com pessoas de mais de 70 nacionalidades diferentes. Depois de um período intensivo de procura de informação e conversação com outras pessoas que tinha passado pela mesma experiência e com a minha família decidi que, após ter sido seleccionada, o único passo que poderia dar era vir, pois de outro modo nunca me perdoaria a mim própria por aquilo que tinha deixado escapar. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que cheguei a Duino e me senti num mundo completamente estranho. Todos eram extremamente atenciosos e assim que viam alguém novo vinham logo apresentar-se e dizer “Olá!! Eu chamo-me....., sou de..... Está tudo bem contigo? Já viste o teu segundo ano? Se precisares de alguma coisa é só dizeres. Não queres vir connosco ao Mickey beber um cappuccino?”. Só com um olhar podia-se dizer quem eram os primeiros anos e os segundos. E não era só por estarem mais à vontade ou por serem mais velhos ( o que não acontece em alguns dos casos). Pareciam mais maduros, mais preparados para comunicar. Agora que já estou aqui há alguns meses, consigo perceber perfeitamente o porquê dessa diferença, uma vez que, até certo ponto, ela já se operou em mim. Sempre ouvi dizer que as pessoas só crescem quando lhes é dada responsabilidade, mas nunca me tinha apercebido até que ponto é que isso é verdade. Embora todos no colégio sejam extremamente atenciosos e sempre que necessário façam tudo para resolver os problemas, aqui quem é responsável pela nossa vida somos nós e da nossa decisão está dependente todo o nosso percurso aqui. Contudo, ao longo do tempo vamo-nos apercebendo que quanto mais livres somos de escolher, mais responsáveis nos tornamos e podemos ir mais longe nas nossas aventuras. A vida no colégio não é fácil, mas não deixa por isso de ser maravilhosa e compensadora. È verdade que há dias em que só apetece não sair da cama e estar em casa ao pé dos nossos, mas estes não se comparam com aqueles em que sentimos que fizemos algo de positivo e que o nosso dia serviu de alguma coisa, tanto para os outros como para nós próprios. No colégio temos também o poder de escolher aquilo que queremos estudar e fazer enquanto actividades académicas. Embora possa parecer que seja muito cedo para tomarmos essa decisão, na maioria dos casos que tenho observado, todos os estudantes se mostram muito contentes com as suas escolhas, mesmo que um dia sigam um caminho um pouco diferente nos seus estudos. A verdade é que temos algumas disciplinas obrigatórias e que nos dão uma formação base bastante boa. Por outro lado, uma das coisas que me fascinou mais em relação ao modo de ensino no colégio foi o facto de, mais do que quererem que absorvamos todos os conhecimentos do Mundo, estimulam-nos a pensar e a tirar as nossas próprias conclusões dos dados que nos são apresentados. Outro dos aspectos bastante focados pelo programa é que todos nós saiamos daqui com capacidades comunicativas, tanto escritas como orais, e que saibamos estudar. O curriculum aposta num número de horas de aula menor do que o praticado em Portugal, mas com uma componente mais forte de trabalho extra-aula, tanto em grupo como individual. Para além da componente académica cada aluno deve participar em actividades físicas, actividades estético-criativas, serviço social e serviço para o colégio. O serviço para o colégio e o serviço social visam criar em nós uma responsabilidade colectiva e social e também despertar a nossa atenção para o que nos rodeia. O primeiro que iniciei foi “Agricultura”. Nesta zona de Itália o número de pequenos agricultores é muito elevado e muitos deles têm verdadeiras dificuldades. A nossa função é ajudá-los em tudo o que precisarem. Realizamos imensos trabalhos diferentes, mas o que nos dá força é o agradecimento que vemos nas suas caras quando os ajudamos a fazer algo que sem a nossa ajuda seria difícil de realizar. O meu segundo serviço social consiste em ir com uma amiga italiana passar uma tarde com um casal de idosos que vive aqui em Duino e que, embora as suas faculdades mentais estejam óptimas, têm dificuldade em se mexer e sair de casa. As horas que passamos com eles sinto-as como se as passasse com os meus avós. Aquelas pessoas só querem um pouco de atenção e estão dispostas a dar tanto. Contam-nos coisas da sua vida, ensinam-nos história, perguntam coisas sobre nós. É impressionante ver como apenas algumas horas da nossa semana são tão esperadaspor aqueles senhores que nos esperam. O último serviço social que tenho consiste em ir a uma casa de saúde para idosos e auxiliar as enfermeiras a alimentar os idosos que já não o conseguem fazer sozinhos. Uma das actividades mais importantes do colégio é a realização das semanas nacionais. Como seria impossível realizar uma semana para cada país, os países encontram-se agrupados e de dois em dois anos o calendário repete-se, para que todos possamos assistir a todas as semanas. A semana em que Portugal está incluído, com os países da América Latina e Espanha, teve lugar este ano e foi impressionante. Todo o trabalho que foi necessário para organizar as coisas durante a semana e para fazer o show uniram-nos tanto, que aquelas pessoas vão obrigatoriamente ficar no meu coração para sempre. No entanto, ainda não falei das experiências que me marcaram mais aqui no colégio: as viagens que fiz na companhia de amigos. Ao longo do primeiro período de aulas tivemos dois fins de semana de três dias (uma vez que não temos feriados) e em ambos viajei com amigos do colégio. No primeiro fim de semana fui a Florença com um grupo de seis pessoas: dois espanhóis, uma filipina, uma croata, uma americana e uma rapariga de Singapura. Talvez aqui esteja mais ou menos explicado o que se pode fazer num UWC e se pode compreender porque não é fácil arranjar tempo para tudo. É uma das principais coisas que se aprende num UWC, a fazer em 1 hora aquilo para que precisavas 5. O tempo aqui é escasso e as actividades muitas. Uma vida muito agitada, mas extremamente atraente. Resumindo, o que é um UWC? Pois aí está uma pergunta à qual não consigo responder e duvido muito que alguém possa: cada um vive a sua própria experiência, não há duas iguais. Mas acho que há algo que pode dar um bom exemplo do que é esta escola. Lembro-me de antes de partir de Portugal alguém me perguntar: “Mas é uma escola normal?”. Agora sei que a resposta que dei não era a correcta. Não, um UWC não é uma escola normal. É um lugar onde se aprende a crescer, a estudar, a aprender a compreender os outros e ,mais importante, a tentar compreendermo-nos a nós próprios. Ana Gaivão Cordovil |
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
INICIO DAS VIAGENS DA ANA GAIVÃO
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